domingo, 24 de junho de 2012

O vazio.

Passei muito tempo tentando “suprir meus vazios” até descobrir que o que apertava o meu peito era a quantidade de entulhos emocionais que eu carregava. Eu precisava era do vazio para me sentir internamente arejada e com bastante espaço para crescer. A angústia não é um vazio, é uma corrente que se arrasta. O vazio é uma possibilidade, uma lacuna a ser preenchida, um espaço para uma decoração nova. Precisamos de páginas em branco para que nasçam poemas, de recipientes disponíveis, de um coração espaçoso, de uma alma livre, de uma mente aberta. O vazio só existe para os desapegados, para os que suportam e celebram o silêncio que possibilita-nos ouvir os sussurros da intuição e não os gritos infantis dos desejos imediatos. O vazio é uma esperança maciça. Ele não é apenas a falta que nos move e motiva, mas a lembrança mais genuína de que somos seres inacabados e que precisamos nos construir diariamente, incansável e eternamente. O vazio não é um abandono de si, é um reconhecimento do eu, um convite para o Outro, algo que deve ser preenchido temporariamente, dentro do mesmo movimento humano de acordar sempre um desconhecido. O vazio é uma curiosidade que ainda não foi desvendada. É ter braços livres para o abraço que acabará daqui a pouco, mas que ecoará constantemente na lembrança mais bonita. Porque no toque intenso, o afeto estava leve.
 
Marla de Queiroz
Ele não sabe mais nada sobre mim. Não sabe que o aperto no meu peito diminuiu, que meu cabelo cresceu, que os meus olhos estão menos melancólicos, mas que tenho estado quieta, calada, concentrada numa vida prática e sem aquela necessidade toda de ser amada. Ele não sabe quantos livros puder ler em algumas semanas. Não sabe quais são meus novos assuntos nem os filmes favoritos. Ele não sabe que a cada dia eu penso menos nele, mas que conservo alguma curiosidade em saber se o seu coração está mais tranquilo, se seu cabelo mudou, se o seu olhar continua inquieto. Ele nem imagina quanta coisa pude planejar durante esses dias todos e como me isolei pra tentar organizar todos os meus projetos. Ele não sabe quantos amigos desapareceram desde que me desvencilhei da minha vida social intensa. Que tenho sentido mais sono e ainda assim, dormido pouco. Que tenho escrito mais no meu caderno de sonhos. Que aqui faz tanto frio, ele não sabe por mim. Ele não sabe que eu nunca mais me atentei pra saudade. Que simplesmente deixei de pensar em tudo que me parecia instável. Que aprendi a não sobrecarregar meu coração, este órgão tão nobre. Ele não sabe que eu entendi que se eu resolver a minha dor, ainda assim, poderei criar através da dor alheia sem precisar sofrer junto pra conceber um poema de cura. Hoje foi um dia em que percebi quanta coisa em mim mudou e ele não sabe sobre nada disso. Ele não sabe que tenho estado tão só sem a devastadora sensação de me sentir sozinha. Ele não sabe que desde que não compartilhamos mais nada sobre nós, eu tive que me tornar minha melhor companhia: Ele nem imagina que foi ele quem me ensinou esta alegria.
 
Marla de Queiroz

quinta-feira, 7 de junho de 2012

We got us.

Olha uma estrela cadente! Faça um pedido, Mari.
Confesso que quando pediu para que eu fizesse um pedido, minha vontade era olhar nos seus olhos e dizer: "tudo o que eu mais quero está aqui na minha frente." Calei-me. Queria ter dito algo, feito algo, qualquer coisa, qualquer gesto. Mas não fiz. Meu único desejo é que deixemos de ser "eu e você" para sermos "nós". Queria que pudesse presenciar cada momento da sua existência. Desde a hora que você acorda de manhã com seus olhos pequenos e seu cabelo bagunçado até a hora que chega em casa, já altas horas da noite, com a gravata já frouxa e as vistas cansadas. Poder fazer o seu café, almoço e jantar. Visitar seus pais, ajudar sua mãe com os serviços domésticos e ver que seu velho sente orgulho por você ter encontrado uma garota como eu. Brincar com sua irmã e ficar horas conversando com o seu irmão mais velho que você tanto reclama, mas que no fundo, é muito parecido contigo. Ler seus livros, rir seu riso, aprender tuas manias, decifrar teus mistérios, usar suas gírias. Queria você entre meus lençóis me mostrando um mundo diferente, desconhecido. Mostrando-me as mais diversas sensações que um homem pode proporcionar a uma mulher. Encher-te de beijinhos, deixar um bilhete na cabeceira toda manhã. Chorar teu choro manso, cuidar do teu coração. Ler histórias pra você dormir. Comprar um apartamento onde só caiba eu, você e nossos sonhos. Onde poderemos não nos importar com a bagunça ou com o que nossos vizinhos pensarão de nós. Brigar com você, virar as costas durante horas e depois, com apenas um simples olhar de arrependimento, tudo estaria resolvido. Aí é um abraço pra cá, um beijo pra lá e a história termina no quarto. A paixão viria mais forte. O sentimento ainda mais bonito e o prazer seria indiscutível. Ser feliz pelo simples fato de um ter ao outro, independente da situação. Namorados, amante, mas, acima de tudo, amigos!



(이 영 인)

sábado, 2 de junho de 2012

Infância

Quero de volta meus anos felizes nos quais eu podia andar por aí sem nenhuma preocupação com o que os outros iriam falar de mim. Quero meus joelhos e cotovelos ralados, meu nariz esfolado, meu riso solto. Chegar as pressas da escola, fazer meu dever e ir brincar na rua até tarde da noite. Ter amigos por simplesmente ser quem eu sou. Sorrir pelo simples fato de estar feliz, realmente feliz. Correr sem rumo, esconder atrás do muro, brincar de policia e ladrão. Ser quem eu quissesse ser. Ter o que eu quissesse ter, mesmo que só na imaginação. Chutar a bola, pular amarelinha, jogar a peteca. Nunca ficar sozinha. Nunca me sentir sozinha. Quero minhas bonecas para servirem de cobaia quando eu resolver testar um novo corte de cabelo. Quero meus bonecos para servir de principe encantado. Quero minha inocencia. Acreditar que todas as pessoas são felizes. Acreditar nas pessoas. Ou simplesmente acreditar. Em qualquer coisa. Em um futuro melhor por exemplo. Acreditar que um dia as todos vão poder viver felizes, em paz, em união. Acreditar que a criança que mora em cada um de nós vá resurgir e fazer com que tudo se clareie. Porque nesse mundo, não há nada que o riso e o olhar de uma criança não resolva. É nisso que eu quero acreditar. É nisso que precisamos acreditar. Acredite.



(이 영 인)